
Estar no Mundo...linguagem
Contextualizando a vida com Fernando Pessoa,
1 Era um homem que apparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exaggeradamente quando sentado, mas menos quando em pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pallida e sem interesse de feições um ar de soffrimento não accrescentava interesse, e era difficil definir que espécie de soffrimento esse ar indicava - parecia indicar varios, provações, angústias, e aquelle soffrimento que nasce da indifferença que provem de ter soffrido muito.
2 Passei a vel-o melhor. Verifiquei que um certo ar de intelligencia animava de modo incerto as suas feições. Mas o abatimento, a estagnação da angustia fria, cobria tão regularmente o seu aspecto que era difficil descortinar outro traço além d'esse.
3 ...A sua voz era baça e tremula, como as das creaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inutil esperar...
4 Vicente Guedes supportava aquella vida nulla com uma indiferença de mestre. Um Stoicismo de fraco alicerçava toda a sua attitude mental.
A constituição do seu espirito condenava-o a todas as ansias; a do seu destino a abandona-las a todas. Nunca encontrei alma de quem pasmasse tanto. Sem ser por um ascetismo qualquer, este homem abdicára de todos os fins, a que a sua natureza o havia destinado. Naturalmente constituído para a ambição, gozava lentamente o não ter ambições nenhumas.
5 ...Cuidára especialmente das cadeiras - de braços, fundas, molles -, dos reposteiros e dos tapetes. Dizia elle que assim se creára um interior "para manter a dignidade do tedio"...
6 É quanto resta e restará d'uma das almas mais sutis na inercia, mais debochadas no puro sonho que teem visto este mundo. Nunca - eu o creio - houve criatura por fora humana que mais comlexamente vivesse a sua consciência de si-propria. Dandy no espírito, passeou a arte de sonhar através do acaso de existir.
7 Para Vicente Guedes ter consciência de si foi uma arte e uma moral; sonhar foi uma religião.
Elle creou definitivamente a aristocracia interior, aquella attidude de alma que mais se parece com a propria attitude de corpo de um aristocrata completo.
- livro do desassossego, fernando pessoa
